Quem você decide ser diante das circunstâncias?
Durante grande parte da vida, acreditamos que o nosso comportamento é consequência direta das circunstâncias. Quando tudo está bem, sorrimos. Quando surgem dificuldades, perdemos a tranquilidade. Quando somos reconhecidos, sentimos confiança. Quando somos criticados, passamos a duvidar de nós mesmos. Sem perceber, entregamos às circunstâncias o direito de determinar quem seremos naquele dia.
Talvez seja por isso que tantas pessoas sintam que vivem sendo levadas pela vida. Não porque lhes falte inteligência ou capacidade, mas porque cada acontecimento externo acaba assumindo o lugar de condutor das suas decisões. Em um único mês, a direção da vida pode mudar dezenas de vezes, acompanhando o humor, o medo, a esperança, a preocupação ou a opinião de outras pessoas.
Mas existe uma pergunta capaz de interromper esse movimento automático.
Quem eu decido ser diante desta circunstância?
Essa pergunta não elimina a dificuldade, nem resolve imediatamente um problema financeiro, uma perda ou uma decepção. O que ela faz é muito mais profundo: ela devolve à pessoa a responsabilidade pela próxima decisão.
Quando a circunstância ocupa o centro da nossa atenção, todas as escolhas passam a depender dela. Trabalhamos apenas quando estamos motivados. Persistimos apenas quando os resultados aparecem. Mantemos a calma apenas enquanto tudo permanece sob controle. Aos poucos, deixamos de construir a própria vida e passamos apenas a reagir ao que acontece.
Entretanto, quando a identidade passa a ocupar esse lugar central, algo muda silenciosamente. A pergunta deixa de ser "o que está acontecendo comigo?" e passa a ser "como alguém que deseja construir esta vida responderia ao que está acontecendo agora?". A circunstância continua existindo, mas já não possui o mesmo poder de determinar o rumo da próxima escolha.
É nesse momento que a direção começa a nascer.
A direção não elimina as tempestades, mas impede que cada tempestade determine um novo destino. Ela permite que a pessoa reduza a velocidade sem abandonar o caminho, espere quando for necessário, mude a estratégia quando as condições exigirem, mas continue orientada pelo mesmo propósito.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da liberdade. Não a liberdade de controlar tudo o que acontece ao nosso redor, mas a liberdade de não permitir que cada acontecimento controle quem estamos nos tornando.
Essa compreensão também modifica a maneira como enxergamos a identidade. Muitas vezes pensamos que primeiro precisamos descobrir quem somos para depois agir de forma coerente. Talvez o caminho seja exatamente o contrário. A identidade não surge antes das escolhas; ela é construída por elas.
Cada resposta dada diante de uma circunstância difícil deixa uma pequena marca em quem a oferece. Uma decisão responsável fortalece a responsabilidade. Um gesto de coragem fortalece a coragem. Uma escolha serena fortalece a serenidade. Aos poucos, aquilo que parecia apenas uma atitude isolada transforma-se em uma característica da própria pessoa.
É por isso que o futuro raramente é criado em um único grande acontecimento. Ele começa a ser formado nas decisões discretas que quase ninguém percebe. Cada escolha é um pequeno voto na pessoa que estamos construindo. Repetidas ao longo do tempo, essas escolhas deixam de ser apenas comportamentos e passam a definir o nosso modo de viver.
Talvez estabilidade não seja viver sem mudanças. A vida continuará trazendo perdas, conquistas, dúvidas e recomeços. Estabilidade talvez seja algo mais silencioso: a capacidade de permanecer fiel à direção escolhida enquanto tudo ao redor continua mudando.
No fim, as circunstâncias sempre farão a mesma pergunta.
A diferença é que, em vez de responder apenas ao que aconteceu, podemos responder também à pergunta que realmente importa:
Quem eu decido ser diante desta circunstância?



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